Hofstetter Turbo brasileiro é destaque na AutoClásica argentina

Hofstetter Turbo brasileiro é destaque na AutoClásica argentina

Um dos automóveis mais exóticos já produzidos no Brasil acaba de ganhar reconhecimento internacional. Um Hofstetter Turbo de 1986, pertencente ao acervo do museu Dream Car, de São Roque (SP), recebeu uma premiação especial na AutoClásica 2026, tradicional encontro de veículos antigos realizado em San Isidro, na região metropolitana de Buenos Aires. A homenagem foi concedida pela organização do evento, encerrado nesta segunda-feira (12/10), em reconhecimento à participação brasileira.

Um protótipo nascido da paixão por carros italianos

A história do Hofstetter começou muito antes de sua estreia comercial, na imaginação de Mário Richard Hofstetter, adolescente fascinado por carros-conceito italianos. Filho de Felix Hofstetter, suíço ligado à indústria de embalagens, Mário se inspirou em dois protótipos marcantes: o Alfa Romeo Carabo, apresentado pela Bertone em 1968 com desenho de Marcello Gandini, e o Maserati Boomerang, criado por Giorgetto Giugiaro em 1971. Aos 16 anos, já tinha os primeiros desenhos prontos, e em 1975 a primeira carroceria em fibra de vidro saiu do molde, convencendo o pai a apoiar o projeto.

Da pista de corrida ao trânsito das ruas

O caminho até um carro utilizável foi cheio de tentativas. O primeiro protótipo usou chassi de um carro de competição da antiga Divisão 4, com motor Ford-Binno, e depois testou um conjunto Cosworth Hart 2.0 com câmbio Hewland, o mesmo tipo de mecânica usada por José Carlos Pace na Fórmula 2. A solução, porém, exigia girar o motor a quase 7.000 rpm só para arrancar, inviável no dia a dia. A resposta veio com um chassi tubular específico e mecânica nacional: suspensão traseira do Volkswagen Passat, dianteira do Chevrolet Chevette e motor central-traseiro, inicialmente o 1.6 do próprio Passat, depois o 1.8 a álcool do Gol GT turbinado para cerca de 140 cv.

Design arrojado e produção artesanal

Com portas em tesoura acionadas eletricamente, faróis escamoteáveis e painel digital, o Hofstetter trazia itens raros no Brasil dos anos 1980. As janelas fixas exigiam ar-condicionado automático, e pequenas aberturas corrediças nos vidros de acrílico resolviam o problema de interagir com o mundo exterior, como pagar pedágios. A produção comercial começou na década de 1980, em pequena fábrica na Vila Olímpia, em São Paulo, mas o custo elevado de fabricação e as dificuldades econômicas pós-Plano Cruzado limitaram o alcance do projeto. Atualizações posteriores incluíram o motor 2.0 turbo do Santana, elevando a potência a 210 cv e a velocidade máxima a mais de 200 km/h.

Apenas 18 unidades e um legado preservado

A produção terminou em 1993, com somente 18 exemplares construídos, incluindo protótipos. Mário conservou três deles, entre eles o primeiro, com chassi de competição. O exemplar premiado na AutoClásica é o único com transmissão automática original entre todas as unidades fabricadas, e chegou à Argentina após viagem de caminhão-plataforma, cruzando as fronteiras do Uruguai e da Argentina por seus próprios meios. O Dream Car também levou ao evento um Concorde de 1979, outro automóvel nacional raro, inspirado nos carros dos anos 1930 e equipado com mecânica de Ford Galaxie - do qual apenas 25 unidades foram produzidas entre 1976 e 1985.