O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou, por megafone e em vídeo publicado nas redes sociais na quinta-feira (8), seu primeiro ato de rua do segundo turno: uma passeata na manhã seguinte, em Ceilândia, no Distrito Federal. O gesto, encerrado com o grito pouco usual de "bora, Lula!", marcou a virada de chave de uma campanha que precisou se reorganizar depois de um resultado considerado abaixo do esperado no primeiro turno, quando a oposição conquistou maioria no Senado e Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente, com 1,87 ponto percentual de vantagem.
Comitê de crise e reorganização interna
Horas depois da apuração, a campanha petista já discutia publicamente os rumos da comunicação até 25 de outubro, data do segundo turno. Segundo aliados ouvidos sob reserva, Lula teria reconhecido falhas na organização, chegando a comentar com o presidente nacional do PT, Edinho Silva, que considerava aquela a corrida eleitoral menos estruturada desde sua primeira candidatura, em 1989. A resposta veio com mudanças na linha de frente: o governador reeleito da Bahia, Jerônimo Rodrigues, assumiu a coordenação política com foco na atração de prefeitos; o governador do Piauí, Rafael Fonteles, passou a comandar a comunicação; o senador eleito Rui Costa ficou com a agenda; e o senador Camilo Santana assumiu a coordenação política, posto antes ocupado por Edinho Silva.
A virada digital e os embates no WhatsApp
Nomes jovens e influentes nas redes, como a deputada eleita Ana Elisa, que atribui 90% de sua votação à presença digital, foram chamados a Brasília para reforçar o mutirão online, ao lado de parlamentares como Jones Manoel, Guilherme Cortez, Renato Freitas e Luna Zaratini. A mobilização, porém, já enfrentou turbulência: neste domingo (11), uma decisão do ministro Kássio Nunes Marques suspendeu o canal "Exército de Lula", administrado pelo deputado André Janones e com mais de 3,4 milhões de seguidores, atendendo a pedido de Flávio Bolsonaro. A medida foi revertida cerca de quatro horas depois pelo corregedor do TSE, Ricardo Villas Bôas Cueva, que questionou a interferência e a ausência de provas, deixando a decisão final para o plenário da Corte. Paralelamente, mais de 200 artistas e personalidades públicas, somando centenas de milhões de seguidores, intensificaram manifestações de apoio a Lula nas redes, movimento que teria ajudado a reverter a vantagem inicial de engajamento registrada por Flávio Bolsonaro em setembro.
Pauta econômica, tensões internas e o novo tom de Lula
Internamente, a definição da narrativa de campanha também expôs divergências. Uma reunião no diretório nacional do PT discutiu documento com foco na PEC do fim da escala 6x1, apresentada como contraponto ao modelo de jornada defendido por Flávio Bolsonaro, mas sem consenso sobre o tom dos ataques ao adversário. Declarações da senadora Kátia Abreu sobre a presença da primeira-dama Janja nas propagandas eleitorais também geraram desconforto entre aliados. Já no campo da comunicação pessoal, Lula publicou seu primeiro vídeo selfie no Instagram, formato mais informal, convocando eleitores às ruas - mudança notável para um político avesso a celulares e mensagens de texto, que vem buscando equilíbrio entre seu estilo tradicional e as novas exigências digitais da disputa.